segunda-feira, 7 de abril de 2008

Mude-se o povo nº1

"Mude-se o povo, se não se pode mudar o governo" disse B. Bercht quando o seu povo o desiludiu pela última vez.
No meu caso, é duro constatar que todos os dias penso nesta frase. Hoje, porém, aconteceu uma coisa no meu ganha-pão que me encheu as medidas. O sujeito - um velho, vejam só - já havia aparecido por ali umas quantos de vezes, sempre com o mesmo pedido. Tentámos fazer os possíveis. Infelizmente o sujeito não tinha a coluna vertebral necessária para pôr o seu pedido por escrito. Pior, despedia-se sempre com estas palavras: "veja lá, não lhes vá contar que eu vim aqui".
Poltrão, como todos os bufos, portanto.
E qual era o seu objectivo? É simples: queria que nós fizessemos o trabalhinho sujo que ele não tinha coragem para fazer.
Dissimulado, como todos os impotentes, concerteza.
Hoje apareceu histérico: o seu problema continuava. Eu pedi-lhe que colocasse tudo por escrito, tentando acabar com a comédia.
Ele insistiu, surdo às minhas palavras. Levantou a voz: insinuou que eu não estava a fazer o meu trabalho como devia de ser! E que este era uma país de merda. E que eu (e o meu ganha-pão) não ligávamos nenhuma aos honestos trabalhadores e protegiamos os gatunos!
Grotesco, como todos os mediocres, afinal.
Acabámos aos gritos; eu ameacei pô-lo na rua, como se fosse um aluno mal comportado. A minha colega chamou o segurança. Ele desatou a chamar-nos nomes do mais denso vernáculo. O segurança pegou-lhe pelos colarinhos e largo-o no exterior com estrondo. Pormenor curioso: estava uma cigana (protagonista de peixeiradas anteriores, mas mais softs) entre os outros clientes presentes. Dizia, abanando a cabeça: esta gente não se sabe comportar!
Acabou sentado no passeio do nosso parque de estacionamento: os meus colegas do andar de cima aproximaram-se dele para o ouvir chamá-los de chulos e coisas semelhantes. Por ali ficou, como um cão enxotado.
Depois chegou a polícia que fez a «ocorrência» e escoltou-o até à saída.

***

Houve um tempo em que eu usava a expressão "entre a esquadra e o bordel" para descrever alguns dos meus clientes. No que me diz respeito, e a partir de hoje, já só falta o bordel.
Que raio de modo de ganhar a vida!...

As minhas guerras nº2

A Oeste nada de novo. Continua incessante, como esta chuva de Abril, a minha barragem de artilharia às posições inimigas. Se do ar se visse esta paisagem dir-se-ia a lua, tantas as crateras criadas. E o bombardeamento continua. Pequenos morteiros, grandes obuses; até dos aviões que de momento ainda apenas servem para sondar o movimento da força opositora, se largam granadas, lançadas pelo fotógrafo, à mão.
A minha força aguarda, encolhida nas profundezas das trincheiras recuadas. A 1ª linha, demasiado próxima do rebentar dos meus próprios obuses queda-se deserta. Todo o meu exército aguarda que a chuva de aço e fogo passe.
Começou prometedora a barragem na nova frente. Mas ai! Eis que a esta chuva de concepção humana se somou a chuva de água, vinda de cima, como se a natureza subitamente desperta (mas porquê, por quem?) quisesse arrefecer o momento em que antevi a brecha.
Por isso é necessário aguardar e insistir no bombardeamento pesado. Que ninguém ouse sair ainda da protecção do abrigo! Às defesas somam-se agora poças de lama fundas provocadas pela minha própria artilharia. Que irei encontrar à minha frente?
O vinho foi servido; é forçoso bebê-lo.

domingo, 6 de abril de 2008

Olimpiadas do disparate

A excelência moral do Ocidente volta a atacar. Sob a inesperada neve primaveril que caiu durante o dia de Domingo uma corrida de apanha-a-chama-olimpica desenrolou-se em Londres durante todo o percurso desta, ou seja, do estádio de Wembley até à Arena O2 em Greenwich. Depois dos treinos na Grécia (a extrema esquerda grega sempre tão dada a manifs primou pela candura) este novo desporto olímpico suscitou grande interesse na Inglaterra. Aparentemente a organização inglesa do transporte da chama olímpica julgou exorcisar os escrúpulos dos mistícos ocidentais chamando ao evento "Journey of Harmony", expressão que pode ser traduzida, no contexto, como "corrida da harmonia". Esqueceram-se que o moderno misticismo ocidental (desde que exercido num ambiente favorável, claro) é talvez o mais tenaz movimento de massas do mundo contemporâneo. Se deseja algo não descansará enquanto não o tiver demonstrado na televisão. O resultado prático no proclamado alvo a abater é secundário, até porque gosta particularmente de causas perdidas. O seu único e verdadeiro alvo é, porém, o próprio umbigo, descendente contemporâneo da glândula pineal do Descartes, o local onde a alma do homo occidentalis moderno entra em contacto com o corpo e se torna «verdadeiramente» humano.
A moda da semana é odiar o governo chinês por causa do Tibete e, consequentemente, tudo fazer para atrapalhar os jogos de Pequim. Também o Darfur foi metido no mesmo saco pelos manifestantes.
É escusado tentar fazer perceber os místicos ocidentais que se querem lutar contra o governo chinês estão a mordê-lo no sítio errado. Em todo o caso faço uma tentativa:

- A China exporta milhões e milhões de objectos (muitos deles inúteis) para o Ocidente: desde t-shirts a esferográficas e computadores. Alguém verifica as etiquetas e aje conforme? Não. Diz a sabedoria convencional: Isso é impossível, os nossos produtos (ou seja os nossos empregos) são mais caros!

- A China compra com o dinheiro das suas exportações os bonds que garantem as hipotecas das casas que compramos do Cacém a Tucson, e em particular, dos cartões de crédito. Alguém se coibe de comprar, usando o cartão de crédito, o mais recente IPod? Alguém compra a casa a pronto, ou pelo menos aluga-a, como fazia antigamente a classe média, em vez de entrar no primeiro banco que vê, endividando-se até aos cabelos? Não. Diz a sabedoria convencional: alugar casas é para os pobres e pagar a pronto é para os ricos.

- A China, ao contrário da África, por exemplo, acha que o capitalismo é afinal uma boa ideia para sair da Idade Média para onde se retirou no século XV. Alguém pensou nas consequências que este despertar teria na posição dominante do Ocidente e consequentemente nas suas ideias, como a democracia? Não. Diz a sabedoria convencional: Eles têm o direito a ter o nosso nível de vida e são um mercado muito bom para fazer negócios da China. Para o diabo o planeta, e para o diabo os racistas dos Ocidentais brancos e previligiados e para o diabo os seus empregos e a sua civilização.

A China candidatou-se e ganhou a organização dos Jogos Olimpicos de 2008. Faz parte do misticismo ocidental achar que os Jogos Olimpícos devem estar acima da política. Jimmy Carter foi vilipendiado por ter boicotado os Jogos de Moscovo: gritou-se então que era contra a paz e o entendimentos dos povos. Muitos dos místicos que vemos a chorar o Tibete vilipendiaram esse presidente americano pela sua posição. Agora chamam nomes por não se boicotar os Jogos de Pequim. Em que ficamos, então? Que excelsa qualidade faltava aos afegãos e aos Europeus de Leste que os Tibetanos parecem agora ter?

Esta gente enche-me as medidas: tenho um crescente nojo pelos místicos do Ocidente, nojo só superado pelos políticos que eles elegeram ou deixaram eleger como resultado da incapacidade de castrados que são por não serem já capazes de gerar um Trotsky.

Falta agora aguardar pelo round do apanha-a-tocha-olimpica em Paris. Os místicos ocidentais franceses são ainda mais patéticos e o Sarkozy vai exercer todos os seus poderes de Humpty-Dumpty para dar à França e ao mundo uma imagem de manifestante-comandante de carga polícial como só os politicos franceses sabem dar.

Uma última palavra, esta de apreço: a polícia inglesa é de facto uma das mais civilizadas organizações do mundo. Vejam só como eles conseguiram gerir a coisa com a dose certa de dureza, contenção e respeito por quem demonstra a sua opinião.

Pareciam pastores a conduzir um rebanho de ovelhas assustadas.
Os manifestantes, nem que seja só por isto, deviam ter vergonha na cara.

sábado, 5 de abril de 2008

Foto Safari aos Conventos

As prometidas visitas aos Conventos já foram realizadas bem como as fotos. Segunda-feira, nova visita à Faculdade para entregar à S. os resultados do presente safari, portanto. Só espero que as gravuras antigas do convento, enviadas a partir do computador da Irmã R. não se tenham perdido no ciberespaço ou dado meia volta ao esbarrar na satanica realidade da minha conta de mail. De facto, são agora 22h00 e ainda nada: vazio que me parece um ominoso sinal. Só espero que tenham chegado ao site do Centro.
Necessário é agora realizar a prometida reflexão sobre os Conventos e os seus habitantes (ver post Plácidos Domingos).
Em primeiro lugar o novo convento: por fora é todo ele modernidade. Ou seja é monilitíco como o cimento de que é feito. Existe mesmo a omnipresente relva selvagem irrompendo pelo betão do chão do parque de estacionamento (tem um sim, os antigos conventos não dispunham de cavalariças? Então?). O cimento das paredes exteriores e as grades do portão de entrada mostram na carne os flagelos da atmosfera lisboaeta. Não se trata de incúria; trata-se da realidade da arquitectura modernista, ela própria um reflexo do tempo que a concebeu: é muito bonita e luzídia ao princípio mas com o tempo e por causa dos materiais escolhidos, dissolve-se na paisagem. O estado final do edifício modernista, suspeito, não são ruínas melancólicas mas escombros de betão corroído e ferros ferrugentos. Isto é irónico ao ponto de ser trágico, duas qualidades ausentes destes tempos finais: afinal a natureza irrompe através do cimento com muito mais facilidade do que através da pedra e do mármore.
Existe paz no exterior; no sentido em que existe paz num bairro social ao Sábado de manhã. Passa por entre aquelas paredes erectas em cimento armado um vento vazio muito diferente do vento deserto que se sente soprar, por exemplo no Mosteiro da Arrábida, junto às curvas dos Ermitérios.
Por falar em curvas: porque diabo a arquitectura modernista é despojada de curvas? É irónico - uma vez mais - que na era da libertação da mulher a arquitectura não possua uma gota feminina. É uma paisagem de menires paralelipipedais erectos em direcção ao céu e ao sol, elementos masculinos por excelência. E não me venham falar que a arquitectura moderna também tem curvas, como este grotesco absurdo austriaco. Estas frívolas demonstrações da cultura contemporânea tem tanto de feminino, como por exemplo, um Imperial destroyer. Digam-me: sou só eu ou vocês também notam as semelhanças?

Mas voltêmos ao Convento. Por causa da minha incurável preguiça, só toquei à porta do dito por volta da 13h00 o que talvez confirme o adágio de que "à hora do almoço aparece sempre mais um". O "irmão-porteiro" recebeu-me e, após uma breve hesitação ("nós almoçamos às 13h15", disse-me) decidu-se a mostrar-me a casa. Notei que não envergava hábito.

O interior é bastante belo, diga-se. Há de facto uma paz genuína e é um sítio acolhedor. O claustro é aprazível: parece um jardim japonês e dele vê-se a igreja e algumas salas através de grandes vidraças ao nível do chão, levemente escurecidas. O recinto parecia convincentemente isolado do mundo abrindo num quadrilátero para o céu que entretanto azulara de novo - estava e esteve um dia sempre cinzento e baço, hoje. Pensei: será que em domingos de jogo grande o bruá das massas histéricas do coliseu ali ao lado vem perturbar a paz dominical dos monges?
Só me pareceu que o claustro carecia de um pouco mais de espaço. Também não vi bancos. E porque razão não existe aquela espécie de corredor a toda a volta (escapa-me o termo técnico) enquadrado por colunas e arcos que se costuma ver nos conventos tradicionais? Parecem-me tão adequados à contemplação os bancos de pedra sempre presentes nesses corredores (vem-me à lembrança o claustro do extraordinário convento de Santi Quattro Coronati em Roma).

Dirigimo-nos depois para a Igreja, sem dúvida o ex-libris do convento. Aqui gostei verdadeiramente do que vi: a nave é espaçosa , solene e acolhedora ao mesmo tempo. Existe uma luz indefinida e diáfana que se mistura muito bem com a penumbra. Descobri que a luz do dia cai para o chão através de uma abertura lateral encaixada a todo o comprimento da nave. Existe também a atrás referida janela para o claustro que por sua vez faz entrar mais luz e, junto ao altar, um imenso, mas localizado, jorro de claridade branca vinda do céu ressalta na alvura do pano branco sobre a ara. O betão, escuro, absorve toda esta luz e mostra, afinal, como este material pode propiciar resultados felizes.

Em relação às celas, julguei serem mais numerosas. Encontram-se todas num corredor com uns vinte metros de comprimento. À primeira vista parece tudo muito desarrumado e o irmão que me servia de guia pediu desculpa por não me deixar fotografar a sua cela, pois "está caótica". Um olhar mais atento, porém, verifica que aquela é a dessarrumação própria dos espaço de muito trabalho: pilhas de livros ocupam carrinhos de transporte como aqueles que existem nas bibliotecas e há, por todo o lado, caixotes com mais livros por desembrulhar. Lembrei-me da maqueta que vi na área comum do convento e que ostentava, orgulhoso, um espaço destinado a Centro Cultural: que pena não ter sido construído! Seria bem proveitoso à minha freguesia e um polo de atracção para visitantes e estudiosos: teria um pequeno Cluny à porta de casa! Espero que a Câmara de Lisboa quando sair da falência e a Junta de Freguesia quando sair da dormência se lembrem que têm este projecto de interesse público para servir de contrapeso à vendilhice do Colombo e às actividades circenses do Coliseu da Luz. Tive pena de não lhe ter pedido para espreitar a biblioteca e o scriptorium; porém a hora que era inibiu-me de lhe fazer mais pedidos e, após mais algumas fotografias, abandonei o convento deixando o esfomeado irmão ir sacear a sua fome.

***

Às 16h30 sob um céu cinzento e baço, prenhe de trovoadas, apareci com o meu amigo T. e a namorada, a A. (que é arquitecta), à porta do palacete onde a religiosa portuguesa Teresa de Saldanha fundou e instalou a casa-mãe das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena. Trata-se também de um estabelecimento Dominicano, embora com recursos muito mais humildes que os seus poderosos irmãos. Esta família da Ordem Dominicana feminina, fundada por uma portuguesa no século XIX, pelo que me pude aperceber, conheceu demasiadas vissicitudes causadas pela turbulenta história portuguesa dos séculos XIX e XX para poder prosperar com maior tranquilidade. Mesmo assim, do esforço resultou uma comunidade bastante simpática, a qual, ocupa com a sua creche, escola-refúgio para crianças com problemas sociais e edifício administrativo, metade do palácio que já foi seu e que agora o Estado faz a mercê de emprestar às irmãs. Aos poucos, o espaço vai sendo recuperado. Mas é visível que cada camada de estuque , cada lâmpada de electricidade e cada criança albergada deve provocar um escrutíneo mais denso que o do actual ministério das Finanças nos ordenados dos funcionários públicos dos Índices e escalões mais baixos (claro).
Notei um certo azedume para com o Estado, identificado com um "eles" de som ligeiramente amargo: 1910, e o que se calhar é pior, a desatenta e sovina actual IIª Republica, são realidades presentes e madrastas. Deve ser duro ocupar um espaço que lhes foi dado pela fundadora e serem tratadas como um qualquer inquilino.

O espaço em si não é propriamente um convento no sentido em que o edifício dos Dominicanos homens é. Este é um espaço que gira em torno das crianças que serve e da administração das actividades da Ordem. Ironicamente é, à sua maneira, um espaço mais ligado ao meio social envolvente que o Convento dos homens: é mais improviso e mais adaptação; a arquitectura do espaço é uma sucessão de estilos e remendos resultantes da situação algo precária de inquilinos e da sua irrequieta história. Não foi construído de raiz em dois anos e cinzelado com tiques e toques modernistas; foi feito por várias pessoas, instituições e nascido de desejos por vezes contraditórios dos seus sucessivos ocupantes. Tem também outra qualidade, a qual se nota nos jardins (os quais, segundo me disse a Irmã R. já foram em tempos maiores e mais belos que os do Marquês de Fronteira ali ao lado). Os jardins são entrecortados com hortas e arvores de frutos. Ali não há flora zen. Mas há pássaros a esvoaçar e abelhas zumbindo e existe um dessassossego vegetal que deixa adivinhar a existência de um verdadeiro ecossistema vivo e em constante adaptação.
Como o resto do local, aliás.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Surpresa no Zimbabwe

Será possível que Robert Mugabe tenha perdido as eleições Presidenciais e o seu partido as parlamentares no Zimbabwe, como acabei de ver na net?
Se é esse o caso podemos estar perante o caso de assistirmos ao nascimento da verdadeira democracia em África: governantes derrotados nas urnas!
Esqueçam a África do Sul. Nesse país, até agora, o que vimos foram três eleições livres e sossegadas e uma transição de regime milagrosamente suave (pelos padrões africanos). Mas mesmo na África do Sul, chamo à atenção, ainda não assistimos a remoção de um governo através de eleições: os acontecimentos de 1994 foram uma mudança de regime decidida por consenso e arbitragem internacional. A eleição de Mandela veio depois das agulhas estarem todas acertadas em infinitas reuniões de uma coisa chamada CODESA (Convention for a democratic South Africa).

Isto que está a acontecer no Zimbabwe é comida para o pensamento. Então não é que eles conseguiram?
Aguardemos pelos acontecimentos. Quando a coisa estiver mais definida farei um comentário.
Ah! é verdade: a caricatura é da autoria do Zapiro, o meu caricaturista preferido. Vão ver os desenhos dele ao Mail & Guardian, um dos mais interessantes jornais desde planeta.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Futebol ao entardecer

Jogo dos Lusitanos F.C. na Ameixoeira.
Pela primeira vez começámos um jogo com a gloriosa luz do sol iluminando a nossa destreza em campo. Consequências da mudança de hora. Desta vez os meus primos não puderam comparecer embora tenham prometido vir para a semana. Mesmo assim foi suficientemente divertido para, duas horas depois, ter suado do nosso esforço o resultado de 8-7 para a equipa que não me teve como guarda-redes.
A S. e o Prof. E. compraram uma bola nova. Infelizmente é tão levezinha que servirá, quando muito, para jogos de voleibol! Tivemos de jogar com uma bola dura como pedra, gentilmente cedida pelo B., o encarregado do campo que também joga connosco.
Toda a gente se queixou do calor: ao fim de dez minutos de corrida já toda a gente jogava de t-shirt, até este vosso cronista, que é guarda-redes e necessita de todo o poder almofadado do fato treino quando cai no cimento duro do chão.
Consequência ou não, o número de lesões dolorosas foi, parece-me, maior neste jogo que nos anteriores. Só a minha pessoa magoou seriamente o dedo grande do pé (pontapeei o chão em vez da bola!) e o joelho esquerdo. Ambos os sítios ainda emitem dor na altura em que escrevo: meio dia do dia seguinte. A propósito: não liguem à data do post, serve apenas para manter a coerência cronológica...
E é tudo da frente desportiva. Sexta-feira volto a ver os lusitanos (embora na variante académica) por causa do "Projecto Lázaro". Não me posso esquecer de levar à C. os dez Euro do livrinho que comprei ao Centro no cocktail do Padre M.A.!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Cimeira da Nato em Bucareste

Os líderes do Ocidente Cristão estão neste momento a chegar à capital da Roménia, Bucareste, para mais uma Cimeira da NATO. Trata-se essencialmente de uma demonstração de unidade da elite política perante os povos que juraram defender. Ver Website aqui.
Deste lado do cordão de segurança, desde jornalistas aos iluminados do costume, todos procuram, por sua vez, provar ser esta a cimeira que irá mudar tudo ou acabar com tudo. Esta apocalíptica certeza pairara já em Riga há dois anos atrás; agora o ritual repete-se. Possivelmente com o mesmo cerimonial litúrgico das manifestações anti-globalização e das fotografias da praxe, seguida pelo climax cálido das declarações ocas e o embrulhar da tenda para, daqui a dois anos, tudo voltar à mesma (apropriadamente, para dar um de "desafio" numa cidade do leste da Europa). Estas Cimeiras quando comparadas com os seus distantes antepassados, os "Congressos" do século XIX, sobram em «mediatismo» o que lhe falta em substância. É paradoxal: os Congressos eram quase encontros de iniciados mas os seus resultados eram públicos e percebidos por todos; estas cimeiras arrastam centenas de jornalistas e alguns milhares de peregrinos (de analistas, consultores e fornecedores de logística aos místicos semi-profissionais das "manifs") e qual é o sumo da coisa?
Alguém se lembra do que foi decidido em Riga?

Em parte a grande diferença reside, não como se poderá superficialmente imaginar na "complexidade do mundo actual", lugar-comum oco, mas na diferença de mentalidades nos políticos e nas respectivas sociedades. Veja-se a situação do mundo em 1878, quando se reuniu o Congresso de Berlim: era pelo menos tão complexo como o actual (descontando os problemas ambientais). E o que é mais irónico, era complexo precisamente nos mesmos locais que agora pesam nas mentes de participantes directos e indirectos, a saber: Balcãs e Afeganistão. A Rússia é o grande protagonista, presente em 1878 e ausente agora por razões óbvias. O destino do decadende mundo islâmico o ruído de fundo (O colapso lento do Império Otomano e o Afeganistão em 1878; o Kosovo e o Afeganistão agora). Curioso, não é?

Actualmente parece tudo muito mais desligado do mundo real; a coragem de falar claro relativamente aos escolhos geo-políticos (ou sejam onde terminam as respectivas áreas de influência) foi substituída pelo medo de que algures, em alguma sondagem, se percam pontos percentuais por não se respeitar os "direitos humanos" ou por se estar ao serviços de "interesses". Ao mesmo tempo os políticos devem manter quentinhos os seus eleitores, os quais, habituados como estão a que lhes façam todas as vontades, não se dispõem a fazer a mínima concessão neste capítulo, ainda que na prática, algum povo bárbaro se lixe para que isso seja possível. Queremos virtude e ao mesmo tempo conforto!
Que diriam os nossos antepassados?

Falemos claro: a expansão da NATO para os Balcãs e para a Geórgia (Estaline deve estar às voltas) enfurece a Rússia que vê o Ocidente e o que é pior, o estilo de vida ocidental cada vez mais próximo do centro do Império e das sua maior fonte de petróleo: o eixo Baku-Grozny-Maykop. Por essa razão a França e a Alemanha não pretendem que a Ucrância, a Geórgia e os países balcânicos entrem na Aliança: não querem perturbar o urso russo que fornece o gás natural mais barato disponível à Europa.
Por outro lado os Estados Unidos cujo gás natural vem de outros lados quer um avanço da NATO o mais possível para Leste a fim de emparedar os Russos e meter uma cunha a norte do Médio Oriente. É o braço de ferro entre estas duas correntes que estará em cima da mesa na Cimeira de Bucareste.
Este desejo expansão é, na minha opinião, aceitável pois expandir a NATO significa expandir o Ocidente e o seu modo de vida. É o primeiro degrau para o estabelecimento de sociedades minimamente coerentes nesses recondidos sítios. Mais: os russos não poderão fazer absolutamente nada: fecha a torneira do gás? Nós somos os seus melhores compradores e a China usa carvão (que dispõe em abundância para aquecimento e electricidade); não precisa, como nós, do gás russo. É precisamente por se saber fraca que tanto tem esbracejado contra esta expansão e contra, por exemplo, o sistema americano de defesa anti-missil.

Infelizmente isto não é assim percebido pela generalidade do público ocidental que do fundo do seu conforto muge aflito sempre que o Ocidente conhece alguma vantagem, mesmo em território cujas sociedades são susceptiveis de serem ocidentalizadas em profundidade. O desejo de virtude é a nossa única verdadeira religião, de facto. Isso e permanecermos quentinhos no Inverno resmungando contra o «parvo do Bush».

Ir-se-á ouvir por parte dos Europeus durante esta cimeira (através de insinuações, claro) o argumento de que a NATO serve apenas para a defesa do Atlântico Norte. Este argumento é também usado pelos detractores da guerra no Afeganistão. Relembro, porém que a Organização só tem esse nome porque depois da 2ª Guerra Mundial se recuou com horror perante a ideia de que o Ocidente seria um todo coerente e passível de ser defendido com uma organização de alcance mundial. A luta contra o poder soviético foi, lembro, lutada região a região através de réplicas fantasmagóricas da NATO (SEATO, ALADI, etc). Na altura e depois nos anos 60 e 70 este auto-horror expandiu-se (alimentado pelo comunismo internacional - chamêmos os bois pelos nomes) e de tal maneira se pegou ao discurso político que depois da queda do Muro muito boa gente se opõs à expansão desta para os países do derrotado Pacto de varsóvia.
Agora esse discurso é usado para fazer festas ao Urso Russo a fim do gás natural continuar a fluir. E ainda - ao mesmo tempo - se clama contra o aquecimento global!
É lamentável!
Que diriam os nossos antepassados?
Que dirão de nós os nossos descendentes?